O time da casa tem a vantagem. Google, como pai adotivo da plataforma Android, tem muitas facilidades na hora de promover o uso de seus próprios aplicativos sobre os de terceiros. Isto não quer dizer que não podemos desligar nosso dispositivo de seu software, apesar de que para eliminar de forma mais profunda é preciso ter paciência, cautela e a assimilação de certos sacrifícios. Esta é nossa experiência tentando bloquear todos os aplicativos da Google em um terminal Android.

Não é uma tarefa impossível

Dada a situação atual do mercado e sua natureza pseudo Open Source, a segmentação é o maior problema do Android. Com o auge dos terminais asiáticos, cada vez mais usuários utilizam sistemas operacionais alternativos que, apesar de serem baseados no da Google, pretendem se desligar completamente da companhia, seja o MIUI da Xiaomi, Touchwiz da Samsung ou EMUI da Huawei, para citar os mais famosos. A estas alturas, Cyanogen é só uma vaga lembrança e seu sucessor Lineage OS ainda tem muito caminho pela frente. E embora existam muitas alternativas minoritárias e verdadeiramente desligadas do Android como Plasma Mobile, a limitada compatibilidade de todas estas alternativas faz que tenhamos que nos ater à versão que vem de série. Ainda, não é todo mundo que tem vontade de se meter em flash, custom recovery e por aí vai.

O principal inconveniente de todas estas distribuições é que nem comem nem deixam de comer. Ou seja, incluem sua própria capa de personalização junto com os serviços da Google rodando em segundo plano, além de que, exceto em algumas ocasiões, as alternativas que se incluem de stock por parte do fabricante deixam muito a desejar. Por isso vamos tentar nos desfazer do maior número de serviços Google em um terminal com Android e uma leve capa de personalização, que é um dos casos mais habituais. Especificamente, vamos experimentar isso em um Motorola Moto G de segunda geração com Android 5.1.

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Capa MIUI + Bloatware + Apps Android = O caos

Vale dizer que o estado ideal para começar é restaurando o terminal de fábrica e, se possível, iniciar sem o chip para só inserir posteriormente quando acabar o processo, já que algumas capas nos obrigam a iniciar com um número de telefone, especialmente quando os terminais vêm de alguma operadora. Ao restaurarmos o dispositivo, poderemos escolher iniciar o sistema sem associar o terminal a uma conta Google, de forma que não exista nenhuma dependência e tenhamos menos complicações mais para a frente. E outra óbvia advertência antes de proceder: cada dispositivo é um mundo, e dependendo do software que tenha sobreposto o fabricante pode haver dependência nos aplicativos que produzam efeitos indesejáveis quando começarmos a bloquear serviços, então devemos ter cuidado e fazer backup de nossos dados para o caso de precisarmos dar um Factory Reset pra voltar a começar do zero.

Como desabilitar apps

Já sabemos bem da impotência que provoca a inabilidade de desinstalar muitos dos apps que se incluem por padrão no terminal, sejam os próprios da Google ou os introduzidos pelo fabricante em sua própria capa de personalização, o chamado bloatware, que leva esse nome por encher de serviços desnecessários que só fazem deixar o sistema lento com funcionalidades que nunca pedimos. Isto não quer dizer que não podemos nos desfazer deles, então vamos começar pelo mais fácil.

A lista de apps nativos da Google não se resume a Calendário, Chrome, Contatos, Drive, Fotos, Gmail, Google, Hangouts, Notícias e Tempo, Play Jogos, Play Livros, Play Música, Play Filmes, Play Store, Telefone e Youtube. Em um segundo nível temos ferramentas como Calculadora, Câmera, Mensagens e Relógio, que apesar de também serem padrão da Google, não realizam envios de informações e com isso a gente não precisa se preocupar muito. Como óbvia medida cautelar, antes de eliminar o Chrome devemos nos assegurar que temos outro navegador alternativo instalado para podermos baixar os apps diretamente em formato APK. E mais, tendo em conta que não vamos poder utilizar o Google Play a partir de agora, vale frisar que podemos recorrer ao app oficial da Uptodown para baixar aplicativos e receber atualizações automáticas deles. E após esta autopromoção muito bem-vinda, prosseguimos.

Em Aplicativos > Baixados temos uma lista com todos os aplicativos instalados no terminal. Tocando sobre qualquer um deles acessamos a seção de informações, onde podemos forçar seu encerramento com o botão Forçar Parada. Após isso, e para liberar espaço, tocamos no botão Desinstalar atualizações para retornar o app ao estado inicial de série. Isto só será possível nos apps preinstalados no terminal, e dado que não vamos poder eliminar o app como um todo (exceto se fizermos root ou um esqueminha através de console, algo que trataremos mais abaixo), então nada melhor que minimizar o espaço morto que nos vai sobrar. Após isso tocamos em Limpar Dados e Limpar Cache caso possível, e por último tocamos em Desabilitar. Fazendo isso, além de prevenir que o app seja iniciado, o ocultaremos de nossa bandeja de aplicativos. Em Aplicativos > Desabilitados teremos uma lista com todos os que desativamos.

Alerta! Além de todos os apps da Google mencionados anteriormente, temos o impercebível serviço Google Play Services, cuja importância é vital, já que se trata do API “ponte” utilizado pelo resto dos utilitários da Google para funcionarem corretamente, só é preciso olhar as permissões que requer e que são aproveitadas por todos os serviços que interagem com ele. Ou seja, se desabilitarmos vai tudo parar de funcionar bem, então se pretendemos fazer uma limpeza mediana, continuando a usar o Gmail, por exemplo, vale mais a pena deixar ativo. Se ainda assim quisermos eliminar por ser o elemento que mais consome, o encontraremos em Aplicativos > Em execução junto com outros serviços não materializados em forma de apps como o teclado Android ou serviço de wallpapers, que podemos eliminar igualmente como se fosse um app (mas é importante instalar uma alternativa antes de apagar esses, já que podemos ficar sem teclado virtual).

No caso atual, foram realizados testes num velho Moto G de primeira geração, e após eliminar todos os aplicativos tanto da Google como da Motorola, o montante de espaço acumulado chega aos 366MB (sem contar com Play Services). É o preço a ser pago pela liberdade, mas insisto, mais para a frente será explicado que é possível remover isso se o objetivo é ir a fundo.

Deslogar conta e dizer adeus ao buscador

Por padrão é necessário associar uma conta Google ao nosso dispositivo para poder proceder com a sincronização dos serviços associados. Vamos nos desfazer disso através do sistema de gestão de dispositivos Google entrando nesta URL e tocando no botão Retirar do terminal em questão. A partir de agora não teremos acesso aos serviços que precisem de nossa conta, mas a ideia é justamente não ter essa restrição. Como já recomendamos, resetamos o terminal de fábrica e o dispositivo não nos obriga a associar uma conta ao realizar a configuração inicial, pularemos este passo.

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Ainda há um vestígio de Google muito importante terminal, que é a barra de buscas na parte superior da tela de início. A forma mais fácil de eliminar é recorrendo a um launcher, e o próximo passo é parar de usar o da Google. Nova Launcher é certamente a melhor opção que temos quanto a funcionalidades em sua versão gratuita. Uma vez instalado o aplicativo, vamos em App > Widget Drawers e desmarcamos a opção Search bar. E já que estamos aí, além de personalizar a interface como desejarmos, vamos adicionar uma funcionalidade que se perde ao instalarmos apps fora do Google Play, que é a aparição automática de um atalho na área de trabalho. Para isso, em Desktop devemos marcar a opção Add icon to Home screen.

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Agora vamos tirar um bocado de coisas pelo menu de Configurações da Google. Vamos em Serviços > Anúncios e marcamos a opção Desabilitar Personalização de Anúncios. Desta forma evitaremos que Google rastreie nosso ID de navegação para mostrar publicidade personalizada. Se também queremos deixar de usar o sistema de localização e bloqueio remoto, vamos em segurança e desmarcamos a opção de Encontrar meu dispositivo. Também podemos cancelar o sistema de comprovação automática que analisa periodicamente nosso dispositivo em busca de vulnerabilidades e evita que instalemos aplicativos que, segundo Google, são maliciosos. Para isso vamos em Segurança > Google Play Protect e desmarcamos a opção Buscar ameaças de segurança.

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Os apps alternativos

Agora chega a complicada tarefa de buscar substitutos para os aplicativos que usamos normalmente. De entrada, e em consonância com os últimos passos realizados, deveríamos arranjar um navegador e também um buscador alternativo para a área de trabalho do terminal. Com DuckDuckGo matamos vários coelhos em uma cajadada só, já que seu app, além de instalar uma versão adaptada do Firefox com proteção anti track de série, incorpora seu buscador em forma de widget, coisa que nos vem a calhar. Na primeira imagem que ilustra este texto dá para ver bem.

Após fazer isso já podemos desabilitar o app “Aplicativo do Google” que gerencia o buscador integrado, e que encontraremos (cujo ID é com.google.android.googlequicksearchbox) na bandeja de aplicativos ou engordando como um condenado em Configurações > Aplicativos > Todos. Para termos uma ideia, 247Mb é o que se consome em um velho Nexus 4, enquanto que chega a mais de 500Mb em um dispositivo mais contemporâneo como um Huawei P10.

Mudar os apps básicos por alternativos de terceiros pode ser mais complicado do que parece à primeira vista, já que deveremos utilizar os que não dependam do Google Play para instalar e funcionar. Há muitos apps que comprovam se foram instalados através do Google Play, chegando ao ponto de não funcionar se não for assim. Um exemplo, se instalamos Maps.ME para suprir Google Maps, veremos que é impossível instalar diretamente através do APK se não tivermos adquirido previamente pela loja da Google. Sendo assim, só nos resta recorrer ao método de tentativa e erro. Aqui vai um pequeno compêndio de recomendações.

Blue Mail App

Cinco clientes de e-mail alternativos para Android

Eliminando definitivamente os apps da Google

E agora vamos com as palavras maiores. Existem aplicativos que requerem permissões ROOT que, valendo-se desses privilégios, são capazes de eliminar elementos da pasta /system onde ficam os apps. Traduzindo: ao invés de desabilitar os apps que não queremos, teremos a possibilidade de eliminar definitivamente.

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Root Uninstaller App

Existem vários aplicativos capazes de realizar esta tarefa. O que ilustra este texto é Unistaller Pro, que como já especificamos, requer o desbloqueio do bootloader, instalar um custom recovery e instalar SuperSU para tornar permanentes os privilégios de administrador. Não é a hora nem lugar para explicar como fazer isso, então se queremos seguir adiante é mais importante saber como realizar este processo.

Aqui sim estamos entrando em terreno perigoso, já que qualquer passo em falso nos dará muitas dores de cabeça, sobretudo se encerrarmos algum serviço especialmente útil que esteja em execução. No caso atual, foi bloqueado o gerenciador de downloads (o acesso à pasta Downloads) e junto com isso um serviço da Motorola que gerencia atualizações e, pelo que parece, também o gerenciador de pacotes, de forma que agora os downloads se armazenam em uma rota diferente da original, e a única forma de instalar apps é acessando a pasta com um explorador de arquivos e usando ferramentas alternativas como Uptodown, que utiliza uma pasta diferente. Que isto sirva de exemplo para ilustrar os cuidados que devemos ter.

Alternativa no-ROOT para eliminar apps preinstalados

Por sorte, o root não é o único caminho, já que no blog explicamos como fazer desaparecer o bloatware de nosso dispositivo Android. Para isso, necessitamos de um PC que tenha instalado os drivers ADB, incluídos no Android Studio, ou obtiveis de forma independente AQUI ou AQUI. Uma vez instalados, se estivermos usando Windows 10, só precisaremos escrever na barra de buscas adb shell para abrir uma tela de linha de comandos. Então, teremos que introduzir este comando para ver os nomes de pacotes dos apps instalados.

pm list packages

Após sabermos os que desejamos eliminar (repetindo, tenha cuidado), faremos desaparecer o app em questão introduzindo isto:

pm uninstall -k --user 0 "nomedopacote"

É preciso levar em conta que os apps do sistema preinstalados são encontrados na partição do sistema, então não recuperaremos o espaço que ocupavam. Ainda assim, ao menos podemos eliminar de nossa vista e evitar que se ‘relacionem’ com o resto dos aplicativos do dispositivo.

Como eliminar bloatware em dispositivos Android sem ser root

Custom ROMs, a outra saída

Todo este tutorial está focado em seu uso em dispositivos padrão por parte de qualquer usuário médio. Obviamente existem métodos muito mais drásticos para nos libertarmos dos laços da Google, como é o caso de optar por uma ROM personalizada. O mencionado LineageOS é a alternativa livre que nos permite deixar de lado todos os apps da Google para instalar posteriormente através dos Open GApps. Outras alternativas interessantes podem ser Paranoid Android ou AOKP.

Conclusões

Após dedicar umas quantas horas a todo este processo e comparando ao estado inicial do dispositivo, o certo é que foi liberado em torno de meio giga após eliminar os aplicativos de fábrica e substituir por equivalentes de terceiros, um grande espaço em um dispositivo com apenas 8Gb de armazenamento. Quanto às funcionalidades, pode ser que tenha perdido um pouco de qualidade de vida, já que uma das vantagens de utilizar os serviços da Google é a homogeneidade e interconexão entre eles. O que está fora de dúvidas é que ao eliminar tanta coisa do terminal, a inicialização acontece em menos de 10 segundos (antes demorava próximo de 1 minuto), e tanto a navegação pela interface como o uso de aplicativos de forma simultânea melhorou drasticamente.

Ainda ficam alguns vestígios se analisarmos a carga e gestão de serviços em segundo plano durante a execução de aplicativos cuja eliminação pode acabar com a estabilidade do sistema. Paramos no momento em que o passo seguinte seria monitorar a natureza de cada chamada, mas a recompensa fica muito longe do esforço, o que reafirma a ideia de que Android não é um sistema completamente aberto, dado que inclusive distribuições de terceiros que pretendem ser totalmente isoladas da Google precisam recorrer aos serviços G para determinadas tarefas. Fora isso, só comprando um iPhone.

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